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Vila do Pavão: Catástrofe de 1970, 11 vidas ceifadas, completa 47 anos
 
Publicado em 06/12/2017 09h15min
 
 

REGISTROS GUARDADOS DA ÉPOCA COMPROVAM QUE A CHUVA DE 1970 FOI A MAIOR TRAGÉDIA QUE A COMUNIDADE DO PAVÃO VIVENCIOU NOS ÚLTIMOS 47 ANOS. UM RASTRO DE DESTRUIÇÃO FICOU GRAVADO NA MEMÓRIA DOS SOBREVIVENTES

Por Sérgio Oliveira

Vilal do Pavão

Santa Bárbara é celebrada na Igreja Católica e Ortodoxa toda data de 4 de dezembro. Bárbara de Nicomédia nasceu na cidade de Nicomédia, região da Bitínia, atualmente Izmit, na Turquia, às margens do Mar de Mármara. Viveu no final do Século III, teve os seios cortados e a cabeça decapitada pelo próprio pai Dióscoro, um rico e nobre morador de Nicomédia. Na ocasião quando a cabeça de Bárbara rolou pelo chão, um raio matou Dióscoro. Assim a Santa granjeou o status de "protetora contra relâmpagos e tempestades", além de ser nomeada Padroeira dos artilheiros, dos mineradores e das pessoas que trabalham com fogo.

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Vila do Pavão, nos dias de hoje

Chover em dezembro é tradição. É o mês em que se comemora o dia de Santa Bárbara: 4 de dezembro, lembrada pelos católicos como dia de muita chuva e raios. Era mais um dia normal na segunda-feira de 4 de dezembro de 1970, pelas bandas da Comunidade do Pavão, próximo a Alto Calçado, distrito de São José do Calçado, no Sul do Estado do Espírito Santo. Os passarinhos cantavam alegre e livremente, as vacas, bois, cavalos e galinhas brincavam sem medo. Do mesmo modo 11 pessoas sonhavam com dias melhores. Todavia, algo naquela noite mudou toda uma história, o qual seria narrado com lágrimas por algum escritor ou jornalista 47 anos depois, ou seja, 17.168 dias.

Por volta das 21h30, a Comunidade do Pavão com laços sanguíneos em São José do Calçado, literalmente, ficou acordada em presença do pior pesadelo presenciado até hoje: um forte temporal de longa duração deixou um rastro de destruição. O resultado da tragédia natural foi que duas famílias, uma de sete membros, outra de três e mais um jovem, foram levadas de roldão pelo furor das águas embaralhadas com pedras de diferentes tamanhos e terras transformadas em lama, que arrastaram também suas casas, criações e todos os seus pertences. Pelos relatos publicados no jornal A Ordem de 1970 (A ORDEM, ANO XLIV, Diretor: Eliezer R. de Mendonça, CALÇADO, 13 DE DEZEMBRO, 1970, N. 1940), é possível perceber a dimensão do estrago e a força das águas. Pedras de diferentes tamanhos e terras transformadas em tijucos arrastaram casas, criações e 11 pessoas com todos seus pertences.

No impacto das águas, muitos moinhos de fubá desapareceram. Foi o palco da pior catástrofe provocada pelas chuvas na região. Um dia após a calamidade, ao remexer a lama e os restolhos depositados no fundo dos vales, foram encontrados onze corpos e dezenas de animais sem vida. José Furtado Ribeiro, Anita Maria Furtado, Maria de Lurdes (13 anos); José Francisco (11); Maria Luiza (8), Alceu José (4), Ataíde Costa (20), Maria Rosa Costa (20), Maria Sebastiana (1 ano) e Nelson Costa (19), que trabalhava para Nazareno Marcelino (*07/09/1944, quinta-feira - +20/07/2014, domingo), foram as vítimas fatais.

E lá se foram 47 anos e a marca da chuva de 1970 permanece na memória dos moradores de Alto Calçado. Foi um cenário desolador. Os relatos emocionantes de pessoas que resistiram à forte chuva ajudaram a abranger o tamanho da destruição provocada pela maior tragédia natural da história da Vila do Pavão, pertencente ao município de São José do Calçado. O lavrador Geni Xavier Tiradentes (*17/06/1932, sexta-feira - + 07/02/2015, sábado) morou até seus últimos dias no local da tragédia. Seu filho João Batista da Fonseca Tiradentes (*31/01/1956, terça-feira) um dia antes de completar 47 anos da tragédia, que marcou toda uma geração, contou que na época tinha 14 anos.

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João Batista e a esposa Maria Luiza Tiradentes

-Minha mãe, eu e meus outros irmãos morávamos em São José do Calçado, para que pudéssemos estudar. Meu pai morava lá no Pavão. Era um homem de fé, temente a Deus, mesmo após a tragédia, nunca teve medo de continuar vivendo lá sozinho. Ele vinha até Calçado montado em um cavalo ou até a pé para nos visitar, uma vez que foi um tempo de muitas dificuldades -, disse João Batista.

TROMBA MARINHA OU NÃO?

Pessoas da época afirmam que não foi uma Tromba de água/tromba-d'água ou tromba marinha, que causou a tragédia, e sim, uma chuva torrencial que durou cerca de três horas, pois pelo fato de o terreno ser montanhoso e poroso, não suportou o volume das águas. Nazareno Marcelino disse em depoimento para o Jornal A Ordem em 1970, que poucos minutos antes da hora negra, conversava com seu vizinho José Furtado Ribeiro. E que ele teria lhe oferecido café, mas como estava muito escuro o céu, não aceitou e foi para casa.

-Compadre José, se cair a chuva que ameaça, morreremos todos-, disse Nazareno minutos antes de a chuva desabar. Nazareno ainda contou que logo após a chuva, por volta da zero hora, foi até a casa de José Furtado Ribeiro. Porém, não havia mais sinal da casa.

TRISTE 15 ANOS

O vereador Jose Ailton Cardoso Boca, nascido aos 24 de julho de 1955 (domingo), residente em Alto Calçado, recorda com detalhes da triste noite.

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Boca tinha 15 anos quando aconteceu a tragédia

-Eu tinha 15 anos e andava pelas ruas de Alto Calçado. O céu estava muito escuro, as nuvens baixas causavam medo e faziam um barulho muito estranho. Muitos estavam esperando o pior. E assim foi uma tragédia que o tempo nunca apagou-, declarou Boca.

CORTANDO O CORAÇÃO

Os caixões foram feitos pelo marceneiro Antonio Fernando Rosa Almeida. O governador Christiano Dias Lopes mandou total ajuda para o município. O Chefe do Posto de Saúde, médico Aristides Teixeira de Rezende (+25/08/1980, segunda-feira), traçou medidas de seguranças para evitar algum tipo de epidemia. O prefeito em exercício da época, Antonio Lisboa Barreto, foi até a Vila do Pavão para providenciar a remoção dos corpos para Alto Calçado, custeando todas as despesas.

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Fernando relata que foi muito triste a cena de destruição

Antonio Fernando Rosa Almeida, nascido em 13 de agosto de 1950 (domingo), depois de 17.168 dias, revela que foi muito triste a cena de destruição, tendo de ser temente a Deus para superar tal tristeza.

-Morava em Calçado. Quando recebi a noticia sobre a tragédia foi muito triste. Imagina 11 pessoas perderam a vida de uma forma muito dolorosa. Nessas horas, a nossa fé no Criador nos fortalece. Não cheguei conhecer as vitimas pessoalmente-, desabafou Fernando.

MOCINHA SIMPÁTICA

O operador de máquinas aposentado José Geraldo de Oliveira (Geraldo Vininho), de 69 anos, ajudou no resgate dos corpos. Sempre se lembra da data com muita tristeza e com visões de pessoas penduradas em uma cerca de arame farpado.

- Maria de Lurdes, que tinha 13 anos na ocasião, estudava em Alegre e só retornava no final de semana. Naquela segunda-feira, estudou e resolveu voltar para casa. Morreu na tragédia. Era tão educada. Foi triste vê-la morta -, disse o operador de máquinas aposentado.

PROCURANDO POR UMA LUZ NO ESCURO

Os primeiros socorros foram prestados depois da meia-noite, quando cessou a chuva. Nazareno Marcelino, dentro da escuridão se deslocou para o alto do morro e aos gritos pediu socorro aos vizinhos. Ainda sob o clarear dos relâmpagos constatou a inexistência das casas dos senhores José Furtado Ribeiro e Ataíde Costa.

Os primeiros corpos foram encontrados às sete horas da manhã do dia seguinte por Sebastião Lopes de Abreu (funcionário da Prefeitura de São José do Calçado), Aurélio Nunes de Carvalho (Subdelegado de Alto Calçado), Adelino Ferreira Tatagiba (Juiz de Paz do Distrito) e Ercílio Cordeiro (Cartório de Registro Civil), que comandaram cerca de 100 homens, os quais voluntariamente se propuseram ajudar na busca aos mortos carregados entre os escombros (pedras, madeiras, mato e terra) cerca de quatro quilômetros.

PARTEIRA

Lições de solidariedade marcaram também o dia negro. Os desabrigados tiveram acolhimentos. A ex-parteira Maria Aparecida de Almeida (Dona Zizi Almeida), de 100 anos, na época com 53 anos, lavou e vestiu os corpos para serem velados e sepultados. Segundo ela, foi muito triste lavar os corpos e perceber que a vida havia sido interrompida muito cedo para 11 pessoas, e de modo trágico.

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Dona Zizi, 100 anos, lembra com tristeza da data trágica

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PREJUÍZOS MATERIAIS

Com muito granizo, a chuva aniquilou toda lavoura de milho, arroz e café da Comunidade da Vila do Pavão. Dentro dos atingidos, Geni Xavier Tiradentes, que possuía três alqueires de terra onde a chuva de granizo foi mais intensa, destruindo toda a sua roça de milho e lavoura de café. Também Adelino Tatagiba, Germano Tatagiba e outros proprietários tiveram as roças totalmente destruídas.

Um dia, netos de nossos netos contarão esta triste história que começou lá na Vila do Pavão. Segue a vida!

 
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